sábado, 19 de dezembro de 2009

Sonhador



Era só um sonhador
E carregava tanta dor
Que arrendara outro peito
Pra sustentar o fardo
Do sertão que não brotou
Tinha nove meninas
A mais velha Serafina
E essa logo embuxou

"Mais um pra morrer de fome
Que pelo menos seje homem
Pra se mandar lá pra cidade
E conhecer as tal verdade
Dessa vida de dotor"

Nasceu então Clementino
Com barriga d'água aflorada
Botou o pé na estrada
E conheceu o luar de salvador

Perdeu-se com a cumcubina
Maravilha de mulher
Peste que nem o Diabo
disse não ter passado
E o dele também se perdeu

Pobre peregrino
O destino lhe levou
Pro Rio de Janeiro
Num pau-de-arara fuleiro
E presepeiro se tornou

Dormindo nas ruas
comendo às vezes
E logo se fez
Tocando pandeiro
Na praça do Lido
Mas acabou falido
Caído numa rua qualquer

Lembrou da família
quis voltar pro sertão
Era tarde
Tinha volta não

Morreu sem camisa
Com um tiro certeiro
O tal do pandeiro
Ficou gemendo no asfalto

O sonhador
Teve morte pequena também
Numa reza perdida
A vida lhe foi cruel

As meninas
tão na sina
caíram no mundo
Profundo desterro

O erro
Foi sonhar
E não perceber
Que a vida é só desafio

Um comentário:

  1. Esse poema...
    Me senti mais sozinho, sonhador
    do que realmente sou.

    =)

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